Considerações sobre um Ano Novo legítimo

Marilyn-Minter6

 

Nasceu o dia da minha existência. Acordei me sentindo bestialmente especial. Rolei na cama com a preguiça certeira de que as horas seguintes seriam completamente minhas, e, sob meu domínio, a realidade, minha refém. Independente da calmaria ou tempestade que cruzasse minha mente, eu era a dona do céu.

Estupidamente especial. O tal dia em que dei graça à esse mundo desconcertante, belo, estranho e infernal. Fantástico.

Tomando goles de esplendor, engolia imaginações de perfeição. Nada importava além de mim. Talvez um crédito para o bolo trufado encomendado que já provocava ataques na minha lombriga crescente que se desenvolve dentro de pança pequena, mas farta de espaço.

Com gosto enérgico lavei meus cabelos. Até estrear uma esponja mágica que publicitariamente promete pernas esbeltas e brilhantes de pura seda, eu estreei. Foi a glória do dia! Dia meu, só meu e de mais ninguém.

Pensei no vestido virgem florido, combinei com sapatos amarelos, e me senti uma tonta morna por isso tudo. Afinal, não estou acostumada a abraçar como meus cada dia da minha finita existência. Engraçado. Para celebrá-la tomo apenas uma data do calendário. Mas eu não existo todos os dias? Por que só engulo o sol em um deles? Não teria eu de engolir tanto o sol quanto a lua a cada minuto de minha substância?

Enquanto cuspia pelas esquinas sobre a comemoração delirante das passagens de ano, sustentada pelo chavão cansado de que “ano novo é todo dia”, sequer imaginava que uma óbvia contradição estava sendo de forma massacrante esfregada em minha cara pálida.

Para onde foi a consciência de ser especial sem intervalos? De que lugar insólito, bege e sem graça veio a ideia de me presentear justamente em uma fatia de tempo escolhida por desconhecidos? Para que mundo correu, avoada, a comprovação de minha singularidade única e maravilhosamente cotidiana?

De boca escancarada babei em mim mesma.

Minha revolução interior vai além do cumprimento de um novo ciclo. A renovação de minha mente inusitada não pode ser contraída por um ano novo legítimo. As primaveras de minha essência ultrapassam os critérios climáticos, sociais e culturais.

Simplesmente um dia como qualquer outro, mas um presente diferente de todos os tantos passados. O Universo é meu, e eu, sujeito, me inscrevo em todos os seus ritmos com meu balanço desequilibrado.

Meu ano novo legítimo começa em cada acordar.

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