Fruto de Galáxias

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Resistente aos conselhos fraternos escalei os degraus pesados da escada encaracolada, ancorada no corrimão de braços longos, meu amigo de todas as horas.

O doce meio amargo e prazeroso da sobremesa salientava satisfeito na ponta de minha língua sensível e insaciável.

Ao chegar no cume do quarto quente e ensolarado, não pude deixar de relembrar os raios doloridos que apunhalavam minha cabeça zonza, desde o despertar, casando perfeitamente com minha moleza resfriada.

Dormi penosa, saltando a madrugada. Não me lembro de ter sonhado ou mesmo levado prosa boa com velhos amigos astrais. Mais parecia um presunto vivo, rolando de um canto a outro em um sono impossível.

A consciência pesava, farta de lembrar, trazendo as obrigações pendentes. O labor não espera o tempo, e eu não possuo mais o luxo das horas lentas de mansidão vagarosa.

Tropeçando na caloria gorda que ainda assinalava meus sabores, fui seduzida pelas promessas de um relaxamento sem igual, típico dos domingos vastos e demorados.

Cerrei com gosto as últimas frestas de luz vazadas pela porta de madeira maciça, e me entreguei ao frescor do breu.

A maternidade estava certa. Como filhote novo e sonolento, me aconcheguei nas medidas do meu ninho gravitacional.

Descansando os olhos,a vista escureceu, sobrando fantasias de dias melhores.

Adormeci leve e pronta, inspirando estrelas mágicas que reluzem poeira dourada nos cantos de ninar.

Há quanto tempo não sentia um descanso tão presente? Flutuava sobre a cama, inacreditavelmente celestial.

O tempo parou, foi-se embora, não mais havia. Enquanto dormente, o brilho me encobria, limpando os resquícios de pesos desnecessários, amontoados pelas cicatrizes da vida.

Entre um mundo e outro, vaguei numa felicidade simples, que de tão bela e livre, escorregava.

Não demorou muito para que eu desconfiasse de tamanha regalia.

Ainda no manto das nuvens acordei o medo de que a suavidade daquele momento terminasse. Profundamente coberta, imersa na mais pura brincadeira onírica, me agarrei àquele agora como se não quisesse enxergar a próxima realidade. Queria ser o próprio sonho, parar na brisa da calmaria que me vestia.

Rendida pela enxurrada carinhosa que soava lá fora, espreguicei maus cantos como água doce percorrendo seu caminho.

Há quanto tempo não mergulhava no descanso justo e livre de limitações?!

Engoli brandura farta de gratidão. Levantei perfeita com o universo bufando dentro de mim. Sou a beleza em todos os extremos. Tenho mais do que preciso, mas exatamente o que mereço.

Abobalhada, agradeci à todo amor infinito. Sou grão de areia vivo na imensidão do Espaço. Broto imenso. Conjuntura viva do meu todo intenso.

 

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