Dor que Faz a Festa

nenet13

Eu só queria capturar o olho do boi. Esperava que ele conversasse comigo e abrisse seu coração amargurado, pedindo colo pelos maus tratos de quem acreditava ser seu dono.

Eu diria: “Boi, segue livre que sua beleza não se acaba por conta de margens crueis!”.

Para onde ele iria?

Será que tem vontade de alforria ou prefere a cama da comida certa de todo dia?

Os homens pomposos acreditavam na tolice da posse. Crença presunçosa de poder.

Montavam em suas costas roubadas e esbanjavam a ilusão. Nos galhos pardos e chicotes o couro tilintava. E se relinche tivesse voz? Quem é que cala a dor de quem se emudece?

De cor malhada e animal, eram mudos e esbravejantes por dentro.

Não sei quem segurava a bandeira do desfile, se era o homem ou seu próprio ego.

Os cascos deslizavam nas bolas de esterco cor de abacate que escorregava o asfalto. Eu mesma afundei meu pé cego em um deles.

Meus olhos corriam como berrantes. Seguiam sorrisos banguelos e fumaças de palha pitada. Fugiam da arruaça vazia. Fixavam nos pelos brilhantes, limpos e escovados.

Mas de pulso em piscada, paravam grudados nos olhos vivos e arrebentados dos que dependem do mesmo céu; aprisionados, eles pediam por socorro.

Eram eles ou era eu?

 

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