Açúcar, meu cúmplice amargo

helena-hauss2

Semanas atrás minha cabeça, que já é lesada, andou ainda mais fora dos trilhos.

Caminhei rumo ao almoço com os olhos baixos encarando o chão chuvoso, amparada pela desculpa esfarrapada de que era para não escorregar.

Quando cheguei na padaria, pedi à senhorinha digna do prêmio simpatia cotidiana, um brigadeiro do tamanho de Júpiter. Ao vê-la apertando suavemente aquela bola de chocolate confeitada, meu olho de tandera detectou uma saliva atípica e mortal: o doce estava mais fofo do que o normal.

Fui fisgada. Pedi mais um e, ligeira, somei logo uns quatro tabletes de caramelos recheados. Senti o sintoma pairando no ar, e este aperto não me agrada. Gosto dos sufocamentos alegres que fazem dos olhos pequenas galáxias.

Depois da comilança que mais pareceu festa de Cosme e Damião, virei um balão humano. As consequências da fuga ansiosa estufaram minha barriga e ecoaram gritos de dor que, na verdade, deviam ser as gargalhadas da lombriga que se alimenta do meu vício.

Desde então, venho tentado cortar o açúcar da minha alimentação: “Olá, meu nome é Marina. Sou viciada em açúcar”. Tenho overdoses esporádicas e compulsivas por tudo o que é doce. Tudo. Doce.

Parte da minha família materna tem histórico manchado pela insulina, o que aponta a gravidade das minhas orgias refinadas, sejam elas orgânicas, puras ou camufladas pelo amigo traiçoeiro chamado mascavo.

Ganhei o que não gosto, e para voltar à leveza que me faz caminhar esguia, é um suplício. Sei que o açúcar vicia em bases similares à cocaína, vocês sabiam disso? Pelo menos me sinto amparada pela comprovação científica que me ajuda a justificar meus desequilíbrios de todos os níveis. Quem quiser se aprofundar nos estudos, procure no Google; abstinência também dá preguiça.

“Mas brigadeiro é vida!”, diz a mãe.

Outro dia encarei uma fotografia recente: eu na cadeira sem pose nem barriga murchada.Fiquei triste por ter permitido que uma tristeza moribunda me abraçasse, levando com a brisa morna minha alegria radiante.

Na expectativa de que comendo frutas e proteínas eu exterminaria o mal, desmoronei, porque eu mesma o convidei escancaradamente, a cada Bacio di Latte em que me derretia. Mil portas eu abria.

O que mais pesa é o peso que um contrapeso tem na contemporaneidade. Se não há barriga sarada, um tanquinho acoplado à minha cintura, caio na armadilha ridícula de que há uma beleza a ser resgatada.

Armada e calibrada, vem a metralhadora mental: estou menos bonita? por que? quem disse? Se alguém tiver uma pergunta mais tola, manda aí que eu desafio.

Quem diz é um ser existente apenas no imaginário, na galera fitness do Instagram, nas modelos e atrizes que tem como trabalho a própria imagem e, por isso, a estética construída como perfeita tem de ser seguida à risca.

Quanto tempo vai levar para que eu interiorize a consciência de que meu trabalho é outro, minha realidade é completamente oposta e meus padrões são incrivelmente despadronizados?! Meu suor é com as palavras.

O problema não é a estética midiática que insiste em padrões cada vez mais interplanetários, mas sim, minha falta de equilíbrio, fazendo com que o amor pelo meu corpo sucumba.

A culpa não é de ninguém ou nada que seja externo a mim. É a falta de amor próprio por me sentir menor só porque minha barriga ficou maior. E a luz aqui dentro que me protege todos os dias?

E assim devorei um terço do bolo de maçã com canela, mastigando minhas frustrações.

E quantos discursos como esse já não foram desabafados de maneira mais rebuscada, consistente e opinativa? Está a um pulo do clichê.

Agora, Marina, volte para a água, para as frutas, para a sopa e as proteínas e, realmente, comece a alimentar seu corpo como ele verdadeiramente merece, com amor. Depois não adianta entrar em debates internos por ter se autoflajelado mais uma vez.

Nenhum açúcar ou doce do mundo irá resolver meus problemas. Apenas a sinceridade e a gentileza do amor, por ser perfeita como sou, e serei eternamente.

 

Anúncios

4 comentários sobre “Açúcar, meu cúmplice amargo

  1. Que texto lindo!
    Sofro de compulsão alimentar há dois anos e é justamente por doces. Me imaginei em cada frase do seu texto e sei exatamente como você se sentiu. Obrigada por expor isso, imagino que possamos ajudar muitas pessoas com os nossos relatos.
    Um beijo,
    Júlia

    Curtir

    1. Júlia, olha só, eu sabia que não estava sozinha! =D
      É difícil as pessoas falarem abertamente sobre isso, e um alívio saber que podemos nos ajudar. Quando bate a abstinência eu estou escolhendo o chocolate meio amargo, par dar uma segurada na overdose hahahhahaa
      Amei você ter aparecido por aqui. Muito obrigada e um grande beijo!

      Curtir

  2. Mari você é excepcionalmente boa com as palavras. Realmente comer bem é uma delícia, mas viver com saúde também é uma maravilha. O mais perigoso das comidas e guloseimas é que frequentemente se tornam afetivas, um “carinho”, uma “recompensa”, como a nossa comida preferida que nossa mãe fazia, ou o prêmio por nos termos comportado bem. Então a comida se torna a compensação de outras carências que não a fome, porque “hoje eu preciso” ou “hoje eu mereço”.
    Que se danem os quilinhos ou arrobas a mais, mas com os anos a diabetes, o colesterol alto e o chiado das articulações passam a incomodar mais que o olhar alheio …
    Rainha das palavras, gostei muito também da ilustração, mais uma vez parabéns, merece um Brigadeiro Real e uma Banana Split Imperial …
    Tudo de bom!

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s