Sanfona, Paçoca e Riso

festajunina

Saí do carro impulsionada pelo desejo saliente de degustar e saciar meu vício, que já apresentava seus sinais de abstinência. Delírios existenciais estão na classe dos mais insuportáveis.

Gente, açúcar é a magia mais feliz e obscura de todo o universo.

Entrei como vento nu na padaria de doçuras e roscas requintadas, mais encantadas pela aparência nobre de vitrine do que pelo sabor derretido em si.

Vi o homem de cabelos de algodão e não quis cumprimentá-lo. Talvez ele nem se lembrasse de mim, talvez eu tenha me envergonhado por me lembrar demais. Ele era como uma árvore longa, magra e alta.

Por que isso?

Me joguei na dança da lambança gratuita e povoada. Peguei logo o arroz de creme e canela quente como se fosse o último alimento da Terra. Extra-sensorial. Seria tudo aquilo desejo?! Por comida ou arroz de festa?

O brilho mais interessante era o das velhinhas que pareciam ter vindo da Itália, com suas bochechas rosadas e o resto da cara branca, como louça fina.

A alegria esbravejava por ali. Criançada aproveitando especiarias adocicadas, esbanjando fatura. Provavelmente, ligadas no 220v, não dormiram naquela noite.

O velho moço da sanfona. Seus dedos deslizavam pelas melodias caipiras como quem conhece bem um corpo e sabe dar prazer.

Seus sapatos pretos surrados não acompanhavam qualquer que fosse o ritmo tocado, nem mesmo o das panças empanturradas. Ficavam parados como sua expressão facial: não se mexiam.

Aquele rosto com sobrancelhas vagando na inércia… faziam parte de um ritual cansado ou seria apenas sensação de fim de tarde?

Quando soltou umas palavras sem som enxerguei sua voz grossa de sotaque entortado. Naquele pulo de silêncio ele sorriu para seu camarada do teclado.

Por que ele era quem mais me chamava a atenção?!

Seria pela chave de carro antigo, pendurada nas linhas de sua calça cor de burro quando foge? Ou o forro branco dos bolsos sem quase nada além dos espaços vazios?!

A camisa xadrez em tom de roça bem posta combinava com o brilho do acordeon que de tão íntimo fazia parte do próprio velho. O chapéu de palha com barra e fita preta, do início ao fim do círculo. No alto da testa do homem, todas as rugas orgulhosas à mostra.

A pele também era rosada nas bochechas, como as das velhinhas italianas empolgadas, apenas com um toque e marcas a mais.

Saquei uma canjica da mesa e fui assistir o show no canto daquele homem vasto e, só na aparência, contido.

Duas meninas, com olhos de diamante, riam sem vergonha recheadas de paçoca nos dentes que caía de suas bocas cheias de festa. Também eram brancas como porcelana e de bochechas rosadas, mais ruborizadas dessa vez pelo calor da piada da qual tanto riam.

Enquanto a paçoca se despedaçava no chão, o riso caía solto numa impossibilidade escancarada de contenção. Suas barrigas também se encontravam com o amendoim amassado: deixaram os botões da calça desabotoados para que pudessem rir da graça da vida sem se importar com a aparência totalmente descuidada.

E é nesse descuido que eu me apaixono. Nesses risos descontrolados. Na faísca de gente. Nos detalhes que só ganham importância por, justamente, não terem sido calculados.

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